todas as humanidades?
fria
cidade que tudo dá
e tudo cobra.
do alto dos prédios,
aos beijos dos ventos,
contemplo sua obra:
essa imponência dura,
mas também essa ciência nobre
de seguir em frente.
pulsa: é feita de gente.
vive. e eu acompanho.
não me desfaço
dos vestidos de flores
(embora hoje use
um pouco menos de cores)
nem deixo de lado
minha saudade de mar.
mas vivo.
atenta, sedenta,
retribuindo ganhos
compreendendo que antes
vem o que é,
não o que será.
derramo calma no peito
e brindo, sob o efeito:
o agora
é meu lugar.
Soltei a sua mão sem soltar de verdade.
Em tudo e todos, você sempre esteve presente. Não como certeza à espera, não como eterna possibilidade; não como remédios aos outros nãos. Era bem maior esta presença. Bem mais forte. Era a do amor mais puro, o amor inocente, o amor quando não se pensa em outras coisas que não o amor. (Me pergunto se isso nos acontece mais de uma vez).
Mas eu soltei a sua mão.
E imaginava – sabia - que um dia, cansado, você faria o mesmo. Mas de verdade.
Chorei um choro desesperado, abafando meu entendimento. Quis.
Deixei doer. Até inchar os olhos, até ouvir somente os ecos dos soluços, até se formar um rio que alagou o quarto, a casa, os prédios que em volta dormiam.
Tremi de medo. Me senti absurda e completamente solta. E só.
Depois,
esse enorme silêncio em mim.
a chuva
os faróis vermelhos
as pressas
os silêncios de olhos
a escorrer
pelo vidros dos carros
- e sua dor ali.
os prédios
os elevadores e escadas
as multidões nas praças
o homem que bateu
porque cortou alguém
- e sua dor ali.
o corretor impaciente
o vendedor irritado
o advogado aos berros
a atravessar
ruas e gentes
- e sua dor ali.
as ambulâncias diárias
aos prantos e gritos
as metas do mês
bordando máscaras e tipos
a comemorada intolerância
a exceções
a grandiosidade inquilina
da barriga de milhões
- e sua dor ali.
Estou propensa ao amor. Não que isso seja garantia de alguma coisa; Não que isso seja um letreiro na testa, um convite pra festa... simplesmente assim me encontro. Me assumo leve. Ando todo passo firme, embora suave. Trago doçura nos olhos, uma quietude no sorriso, um perfume de calma que é tão raro... tão raro. Derramo o que sinto em tudo o que toco, verdadeiramente. Sou entrega. Sinto quase que o tempo inteiro - e gosto de o fazer. Estar propenso ao amor é um estado de espírito e corpo: é possível notar. Tem o riso mais solto, mais tranqüilo. Os olhos mais brilhantes. Tem as mãos passeando seguras. O corpo desperto. É uma coisa bonita, isso, uma maturidade de sentimento, uma certeza de tudo – nunca sei explicar! Só sei que cabe no meu abraço agora todo o carinho do mundo, e o distribuo sem egoísmo: dou a quem precisa de ombro, a quem precisa de ouvido; dou a tem fome na alma, como tenho sempre eu. Dou porque tenho de sobra e este é o meu estado mais pleno, mais vivo. Não é preciso um par romântico para me sentir completa. Não é necessária a promessa de dois. É um amor maior, este que me toma... Um estado voluntariamente feliz e confiante para com todas as coisas. Que me faz, como agora, dançar sozinha na sala brindando uma taça de vinho com o espelho. Quando essa sensação me acontece... eu já sei: vem aí um mar. E estou a postos para um mergulho profundo.
coisa boa é o desamor.
a cara do alívio.
quanto suplício, meu deus,
derramou aquela boca!
hoje desdenha, ri,
hoje diz: louca!
como pude?
como foi
mesmo isso?
não há o que pague
quando o olho vê
e o coração nada!
nenhum arrepio
nenhum calafrio
a dor apagada!
oh, grande senhor dos peitos,
amém à cura do meu.
desamor é vida!
regresso de si,
reencontro.
rasgo nas fotos,
incêndio nos ontens
passado e pronto.
agora,
em mim,
só o que virá
vive:
livre,
livre,
livre.
Era uma carta de amor. Um pedaço de papel embrulhando um pedaço do peito. Era uma verborragia inocente e dançante, uma harpa solando para presente, era um pacote de 1000 fatias de cebola picadas – como fazia lacrimar. Era uma carta de amor… uma coleção de vírgulas e reticências, o avesso inteiro de um coração, um alagamento irreversível de sentimentos - jorrava, pingava, molhava. Era um trem apitando, correndo a mil entre trilhos em direção aos olhos do destinatário (que além de destinatário havia de ser também destino, segundo o desejo do remetente). Era um buquê de palavras, um suicídio explícito de solidão - se jogou convicta, cética, côncava, do octogésimo andar! Era um contrato entre os países da alma, era uma bandeira branca tamanho A4, era um travesseiro para certezas, uma chama invisível queimando, um frasco inteiro de paz. Era uma verdade bruta feito diamante... um desfile de risos; era um bilhete de loteria grande, uma compota de suspiros. Era o que era: uma carta, vejam todos, uma carta de amor.
Começar o ano de branco e manter seus primeiros dias também assim. Brancos, novos, puros, páginas a espera do correr dos dias e dedos. Brancos! Zerar tudo o que não foi vivido, as angústias iminentes, o passado que não anda – nem é bom repetir, deixa lá, deixa lá. Brancos! Tempos ávidos pelo preenchimento que virá, tão promissor, tão bonito, tão latente. Encorajo meu peito, sorrio meus olhos, ergo minhas mãos para a luta: somos novos e somos tantos, há um mundo e há possibilidades, quero tudo, quero muito, quero brancos! Me perdoe você, que não me aconteceu… precisei te abandonar. Abandonei também, aliás, os dias cinzas, as reticências estendidas, os soluços parasitas, abandonei os planos falíveis, abandonei as roupas que já não mais uso, abandonei tantos medos, os nãos que eu comumente invento, abandonei as pessoas que foram quaisquer, e só quaisquer, nos lábios meus... Abro minhas portas para o possível, sem entraves, sem trancas, sem memórias, bandeira estendida dos virgens: branco!
Chegue-me pleno e em paz, destino, que meu calendário é todo seu.
Amor avassalador
Vicia
A gente quer, depois,
Que tudo arregace
Que tudo arrebate
Que tudo arrepie.
E aí
Se não vem
Se não é
Sobra suspiro profundo
- gasta-se na hora que não dá,
nas notícias da TV,
no vestido da vitrine
- quanto desperdício.
E aí
Se não vem
Se não é
Fica a gente catando peito
Achando leito
desesperadamente
Onde não tem.
Romantiza por qualquer trocado
Pena que nem o diabo
Sente falta de um pedaço
Enorme de dentro.
Vive à mercê do e se... Ô dó!
Os olhos à caça,
Agonia que não passa,
Luta em vão contra o tempo.
Pra que serve mais todas as roupas?
As garrafas de vinho?
As velas semi-derretidas
ainda a espera
de queimar por dois?
Pra que serve mais os versos criados
E não-ditos
(eram surpresa)...
Tudo em coma,
Tudo em transe,
Numa iminência longínqua
(mal sabem)
de acontecer.
Só nos resta esperar,
As unhas roer,
O desejo acalmar,
rimar, pirar, beber!
Até que então venha
outro amor avassalador,
chegando bem daquele jeito:
Cheio de riso, cheio de encanto,
Fazendo de novo
bagunça no peito.