domingo, 23 de setembro de 2012

exercício



fere o lábio.
vê pingando dali
alguma amargura.
azeda à força
esse lado doçura
corre de olhos fechados
por entre a multidão.
e se cair,
e se não.
e se sangrar.
e se, por acaso,
amaldiçoar -
assumirá 
todas as humanidades?
é por elas
que agora procura.
não vai relevar o de dentro.
não vai derramar o olhar.
o coração vai bater
mas, por ora,
sem apanhar,
pausa nos versos,
nos certos,
nos tempos.
é preciso assistir
o ruir do silêncio,
fria
e delicadamente.         
conhecer as ranhuras,
as entranhas,
romper as suturas.
fazer-se luz
com a força do breu:
o outro lado,
o outro eu.

domingo, 10 de junho de 2012

sabedoria


A certeza da fé que me guia, do Deus que me guarda, do amor que me cerca, mesmo estando longe: minha paz. Acordo em silêncio, buscando o equilíbrio. Deixo o sol que há em mim também nascer, ainda que inverno lá fora.

Somos um mar, no avesso. E proponho, ao que sou, calmaria. Amansar as ondas, alisar as ondas, vê-las delicadamente plenas, domadas, certas de. Almejo alegrias brandas.

Descanso um pouco minha inquietude, abandono as definições. Já não quero pensar tanto, nem me sentir pronta: compreendo a grandeza que é deixar a vida correr.

Sigo tentando leveza. É só sabedoria o que desejo agora.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

sem muita rima, com muito gosto

desfilar o meu corpo
em tua camiseta
bebendo certezas
escritas em olhos

que horas virá nosso trem?
que horas serão,
meu bem?
10 minutos
para a quinta taça?

Ah...
brindemos à graça
que é nos termos
em nossos braços
e peitos.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

guerreio

Minha fragilidade é voluntária. Trago dois mundos em mim. Bebo dos dois, brindo aos dois, vivo nos dois - gosto de meus opostos. Trago nas mãos macio, mas também calos invisíveis: de quem luta, de quem não desiste, de quem nunca escolhe o caminho mais fácil. Guerreio com flores. Meus olhos são rio, são mar: oscilam entre o que é doce, terno, tranquilo e o que é revolto, incansável, profundo. Sinto, e sinto muito, mas não confundo mansidão com passividade. Porque sei que o que a vida quer da gente é coragem. É escolha. Peito pronto, peito aberto, peito firme. E mesmo sangrando, mesmo apertado, mesmo com medo, me alisto: eis aqui o meu. 

terça-feira, 15 de maio de 2012

wondering


“O que me tranquiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo o que existe é de uma grande exatidão.”

Clarice disse. E eu procuro entender.

Corro o dedo no contorno das coisas, olho através do vidro a chuva, os carros, o cinza, o tempo. 

O silêncio tem sua medida neste quarto. A luz, o vento que vem dos corredores, os cantos e as portas também. Mas quase que numa oração, quase que numa doce transgressão, desejo: que o amor não.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

1 ano de são paulo

cidade que tudo dá

e tudo cobra.

do alto dos prédios,

aos beijos dos ventos,

contemplo sua obra:

essa imponência dura,

mas também essa ciência nobre

de seguir em frente.

pulsa: é feita de gente.

vive. e eu acompanho.

não me desfaço

dos vestidos de flores

(embora hoje use

um pouco menos de cores)

nem deixo de lado

minha saudade de mar.

mas vivo.

atenta, sedenta,

retribuindo ganhos

compreendendo que antes

vem o que é,

não o que será.

derramo calma no peito

e brindo, sob o efeito:

o agora

é meu lugar.

terça-feira, 17 de abril de 2012

ele

Soltei a sua mão sem soltar de verdade.

Em tudo e todos, você sempre esteve presente. Não como certeza à espera, não como eterna possibilidade; não como remédios aos outros nãos. Era bem maior esta presença. Bem mais forte. Era a do amor mais puro, o amor inocente, o amor quando não se pensa em outras coisas que não o amor. (Me pergunto se isso nos acontece mais de uma vez).

Mas eu soltei a sua mão.

E imaginava – sabia - que um dia, cansado, você faria o mesmo. Mas de verdade.

Chorei um choro desesperado, abafando meu entendimento. Quis.

Deixei doer. Até inchar os olhos, até ouvir somente os ecos dos soluços, até se formar um rio que alagou o quarto, a casa, os prédios que em volta dormiam.

Tremi de medo. Me senti absurda e completamente solta. E só.

Depois,

esse enorme silêncio em mim.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

poesia do arrepio

Mãos

Em contra-nãos:

De ponta a ponta,
Arrepio.
Nos escorremos,
De espaço fartos,
Suando diante
De um falso frio -
Trememos,
gememos,
quão.

Deslizamo-nos
em ávidos carinhos.
Macios e firmes,
feito onda.
O olho no olho
Anuncia baixinho:
O que buscamos
ronda.

Até que o ar
Nos falta
E o fogo de dentro
nos queima
Até que a alma
se exalta
E o silêncio do grito
Reina.

terça-feira, 13 de março de 2012

são paulo

a chuva

os faróis vermelhos

as pressas

os silêncios de olhos

a escorrer

pelo vidros dos carros

- e sua dor ali.


os prédios

os elevadores e escadas

as multidões nas praças

o homem que bateu

porque cortou alguém

- e sua dor ali.


o corretor impaciente

o vendedor irritado

o advogado aos berros

a atravessar

ruas e gentes

- e sua dor ali.


as ambulâncias diárias

aos prantos e gritos

as metas do mês

bordando máscaras e tipos


a comemorada intolerância

a exceções

a grandiosidade inquilina

da barriga de milhões

- e sua dor ali.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

propensa

Estou propensa ao amor. Não que isso seja garantia de alguma coisa; Não que isso seja um letreiro na testa, um convite pra festa... simplesmente assim me encontro. Me assumo leve. Ando todo passo firme, embora suave. Trago doçura nos olhos, uma quietude no sorriso, um perfume de calma que é tão raro... tão raro. Derramo o que sinto em tudo o que toco, verdadeiramente. Sou entrega. Sinto quase que o tempo inteiro - e gosto de o fazer. Estar propenso ao amor é um estado de espírito e corpo: é possível notar. Tem o riso mais solto, mais tranqüilo. Os olhos mais brilhantes. Tem as mãos passeando seguras. O corpo desperto. É uma coisa bonita, isso, uma maturidade de sentimento, uma certeza de tudo – nunca sei explicar! Só sei que cabe no meu abraço agora todo o carinho do mundo, e o distribuo sem egoísmo: dou a quem precisa de ombro, a quem precisa de ouvido; dou a tem fome na alma, como tenho sempre eu. Dou porque tenho de sobra e este é o meu estado mais pleno, mais vivo. Não é preciso um par romântico para me sentir completa. Não é necessária a promessa de dois. É um amor maior, este que me toma... Um estado voluntariamente feliz e confiante para com todas as coisas. Que me faz, como agora, dançar sozinha na sala brindando uma taça de vinho com o espelho. Quando essa sensação me acontece... eu já sei: vem aí um mar. E estou a postos para um mergulho profundo.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

desamor

coisa boa é o desamor.

a cara do alívio.

quanto suplício, meu deus,

derramou aquela boca!

hoje desdenha, ri,

hoje diz: louca!

como pude?

como foi

mesmo isso?

não há o que pague

quando o olho vê

e o coração nada!

nenhum arrepio

nenhum calafrio

a dor apagada!

oh, grande senhor dos peitos,

amém à cura do meu.

desamor é vida!

regresso de si,

reencontro.

rasgo nas fotos,

incêndio nos ontens

passado e pronto.

agora,

em mim,

só o que virá

vive:

livre,

livre,

livre.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

de: para:

Era uma carta de amor. Um pedaço de papel embrulhando um pedaço do peito. Era uma verborragia inocente e dançante, uma harpa solando para presente, era um pacote de 1000 fatias de cebola picadas – como fazia lacrimar. Era uma carta de amor… uma coleção de vírgulas e reticências, o avesso inteiro de um coração, um alagamento irreversível de sentimentos - jorrava, pingava, molhava. Era um trem apitando, correndo a mil entre trilhos em direção aos olhos do destinatário (que além de destinatário havia de ser também destino, segundo o desejo do remetente). Era um buquê de palavras, um suicídio explícito de solidão - se jogou convicta, cética, côncava, do octogésimo andar! Era um contrato entre os países da alma, era uma bandeira branca tamanho A4, era um travesseiro para certezas, uma chama invisível queimando, um frasco inteiro de paz. Era uma verdade bruta feito diamante... um desfile de risos; era um bilhete de loteria grande, uma compota de suspiros. Era o que era: uma carta, vejam todos, uma carta de amor.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

1, 2, 3, go!

Começar o ano de branco e manter seus primeiros dias também assim. Brancos, novos, puros, páginas a espera do correr dos dias e dedos. Brancos! Zerar tudo o que não foi vivido, as angústias iminentes, o passado que não anda – nem é bom repetir, deixa lá, deixa lá. Brancos! Tempos ávidos pelo preenchimento que virá, tão promissor, tão bonito, tão latente. Encorajo meu peito, sorrio meus olhos, ergo minhas mãos para a luta: somos novos e somos tantos, há um mundo e há possibilidades, quero tudo, quero muito, quero brancos! Me perdoe você, que não me aconteceu… precisei te abandonar. Abandonei também, aliás, os dias cinzas, as reticências estendidas, os soluços parasitas, abandonei os planos falíveis, abandonei as roupas que já não mais uso, abandonei tantos medos, os nãos que eu comumente invento, abandonei as pessoas que foram quaisquer, e só quaisquer, nos lábios meus... Abro minhas portas para o possível, sem entraves, sem trancas, sem memórias, bandeira estendida dos virgens: branco!

Chegue-me pleno e em paz, destino, que meu calendário é todo seu.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

avassalador

Amor avassalador

Vicia

A gente quer, depois,

Que tudo arregace

Que tudo arrebate

Que tudo arrepie.

E aí

Se não vem

Se não é

Sobra suspiro profundo

- gasta-se na hora que não dá,

nas notícias da TV,

no vestido da vitrine

- quanto desperdício.

E aí

Se não vem

Se não é

Fica a gente catando peito

Achando leito

desesperadamente

Onde não tem.

Romantiza por qualquer trocado

Pena que nem o diabo

Sente falta de um pedaço

Enorme de dentro.

Vive à mercê do e se... Ô dó!

Os olhos à caça,

Agonia que não passa,

Luta em vão contra o tempo.

Pra que serve mais todas as roupas?

As garrafas de vinho?

As velas semi-derretidas

ainda a espera

de queimar por dois?

Pra que serve mais os versos criados

E não-ditos

(eram surpresa)...

Tudo em coma,

Tudo em transe,

Numa iminência longínqua

(mal sabem)

de acontecer.

Só nos resta esperar,

As unhas roer,

O desejo acalmar,

rimar, pirar, beber!

Até que então venha

outro amor avassalador,

chegando bem daquele jeito:

Cheio de riso, cheio de encanto,

Fazendo de novo

bagunça no peito.