domingo, 21 de fevereiro de 2016

cuidado

dificilmente minha boca fala algo que o meu coração não esteja sentindo. nada em mim é de impulso; sou de construções. sou do que fica, do que finca. do que se ergue lento, mas seguro. cuido de mim, cuidando do outro - não dou mais do que eu intendo verdadeiramente.

quando me entrego, nunca é da boca pra fora: sempre é da alma pra dentro.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

uma mulher, um homem

uma mulher precisa de um homem porque, ah, como é difícil entender essas coisas de carro e manutenção e saber a hora de trocar o quê. uma mulher precisa de um homem para que ele lhe diga se é esse mesmo o preço de tal serviço, qual é o endereço daquele lugar da semana passada, se tem jogo essa quarta feira e o trânsito vai complicar lá pelas seis.

uma mulher precisa de um homem para ser a mulher que quer ser: e se maquiar no espelho, pensando em borrar com beijos arfantes toda aquela obra pintada em sua boca; e vestir o corpo já pensando em como a roupa será dali arrancada; e se perfumar sabendo que, por tal motivo, há de ter logo mais um nariz generoso passeando pelas redondezas da sua nuca, causando pequenos e eufóricos arrepios que durarão longamente na memória.

uma mulher precisa de um homem porque faz frio, muito frio nas noites de sábado em uma cama larga, de lençóis brancos. e porque esse frio não passa enquanto seus pés não se juntarem aos seus pés, e assim possa acontecer o podólogo milagre da calefação amorosa.

uma mulher precisa de um homem para que seus cansaços não sejam só seus. para que haja consolo para seu choro ou, pelo menos, alguma manha — uma mulher precisa de manha, como precisa de manha. precisa também de dengos, de dedos passeando nos cabelos; precisa ter um peito-travesseiro, para descansar os pensamentos e ouvir o coração do outro bater; precisa de uma perna pesada repousada sobre a sua quase que lhe incomodando, mas que ela suporta por pura vontade de ter uma perna pesada repousada sobre a sua.

uma mulher precisa de um homem porque às vezes ela não quer ser tão forte, não quer se bastar, não quer dar conta de tudo — que grandes humanos somos quando nos permitimos a importância do outro.

uma mulher muito precisa de um homem para que seja olhada com desejo enquanto prepara algo com sua sainha rotineira e, nesse instante, entenda o tempo da pele e folgue as pernas e incline o quadril para que entre nela a carne e o calor. uma mulher precisa de um homem para dar sexo e ter amor, dar amor e ter sexo. e para que possam construir juntos uma promessa chamada filhos, chamada lar, e que será para sempre monumento deste verbo intransitivo que tanto transita nos nossos peitos: amar.

uma mulher precisa de um homem para se irritar absurdamente a troco de nada — ficamos mais viçosas, assim; precisa de um homem para terreno de suas verborragias, que são apenas verborragias, oras — ou tpm, talvez; precisa de um homem para lhe olhar bem fundo nos olhos e não precisar dizer uma só palavra, porque suas almas conversam bem em silêncio, quase como se abraçassem.


esse não é um texto machista, sexista ou sobre gêneros, nada disso. é apenas o derramar do coração de uma mulher que gosta de um homem e precisa dele — e que sabe que este sentimento só é possível porque, ao fim, ele também gosta e precisa dela, humanos e amantes que são.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

ao falso amor

assisto à sua partida neste papel em branco.

no meu rosto, pranto.
no meu gosto, fim.


escrevo para te expulsar de mim.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

fé

uma coisa que talvez me faça fraca, que talvez me faça forte: quero apenas o que tiver de ser meu. não disputo quase nada nessa vida; entendo que aquilo que exige forças por demais tem muitas chances de ter entrega por de menos. acredito com todo o meu de dentro na fluência da vida, no correr dos fatos como um rio, na certeza deles como um mar. 

sempre pensei que isso fosse paz... ontem, numa conversa informal, alguém me atentou para a possibilidade de ser: passividade. passividade. será?


sei apenas que meu coração é maior sem doer, e que meu sangue prefere pulsar macio. minhas lutas se resumem quase sempre à fé naquilo que tiver de ser.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

cegos

cegos seguimos
como começamos
tateando amor
e chão
revezando sim
e não

cegos mergulhamos
em nosso oceano
nos beijamos
prendendo
a respiração

e aí nos despimos
e aí nos amamos
e aí nos quisemos
e aí nos negamos
e aí nos fizemos
passado, presente, futuro
mistura mítica
- ansiedade crítica -
e aí fomos tão.

agora mãos
suando
cabeças fervendo
silêncios pairando

agora
essas incertezas
distraindo a beleza
a qual nos doamos

ah, doamos,
doamos,
doamos!
depois, tudo deve
se ajeitar

que amor é assim,
né:
tem que doer

pra vingar.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

cansaço

o amor escapole
das minhas mãos
suadas.
me esforço no tato:
quero tanto.
mas foge 
- astuto,
medroso,
insensato?
nunca pego 
esse bicho no ato.
(nem sei se deixo 
ele fazer o mesmo comigo).

ora digo que sim,
ora acho que não,
só pode ser vaselina
o que sai
do meu coração.

o amor corre
por entre os meus dedos
por entre os meus medos
ele morre.
lhe prometo céus
mas sou 
apenas 
chão


sexta-feira, 15 de maio de 2015

felino silêncio

me olha, o gato.
não paga contas,
não tem problemas,
não se consome.
se espreguiça
religiosamente
quando bem quer.
acorda às 2, às 4, às 6
horas da tarde
sem remorso.
não espera por telefonemas,
desculpas, milagres, 
explicações.
lambe-se
ama-se
tem-se
sem muito precisar.
mesmo se sozinho,
vive.
mesmo sem caminho,
livre.
mesmo que sem mãos
a lhe afagar.
me olha o gato
com olhos bem dentro
será que também me inveja?
coitado.
não sabe como
é ser

do lado de cá.