terça-feira, 21 de abril de 2015

date

pergunta pelos meus gostos
fita bem o meu rosto
foge os olhos às vezes
para passear em meus detalhes.
me entrego em respostas longas,
idem olhares,
lábios sedentos
- assumo que é da carne também o desejo.
cava em mim verdades
sela meus silêncios
conta histórias
poucas.
tira minha roupa
antes
de me despir.
que fazer?
é meia noite
e estou nua num bar
na frente de um homem
que quer
me entender.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

sobre são paulo


quanta ciência você pede, são paulo. tudo em você requer paciência. tudo é pra ontem, tudo é urgência, tudo quer tanto e cada vez mais. os tapetes da suas enormes salas, os asfaltos, abrem caminhos travados que levam ninguém sabe pra onde de verdade. o seu abraço é aberto, mas magro. o limite aqui é o chão. mesmo o mais apaixonado dos seres fuma, um dia que seja, o cigarro da dúvida te olhando da janela. 

ainda percebo suas graças: o que em você é vasto, o que seduz, o que envolve, tudo aquilo que você convida. te aceitamos, cientes. te vivemos, querentes. somos gratos - você é essa cidade grande que faz grande também a gente.

tanto te falta, tanto te sobra. tanto está sempre chegando e partindo. você é essa eterna iminência de caos sobreposta a imensas vontades de cais. você é a mala no corredor da sala que a gente não desfaz por não saber ainda o destino final.

hoje, a cidade para onde todos que tinham sede vinham ameaça justamente secar suas bocas, escurecer seus amanhãs. 

eu te imaginei deserta, na literatura do meu ócio, e isso, mesmo que exagerado, me foi tão estranho... mais duro e frio que todos os seus concretos.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

novo ciclo





33 é um vinho sozinha, deitada no sofá, sob meia luz da sala, comemorando a vida. ė saber o que sonha, e não saber o que virá - mas já saber, dentro de si, que seja lá o que for, a vida providencia. 33 é dizer sem delongas quando não gosta, é esclarecer quando é preciso, é saber o que quer e aonde quer ancorar. 33 é ainda querer dengo, mas saber a hora de ter - e com quem. é ter caixas de fotos, saudades de datas, vontades de mais. é ter o rímel borrado diante do espelho por bem menos tempo - demaquilante rapidamente à mão. é compreender o amor e pacificar a busca por ele. 33 é ter fome no meio da festa, sono no começo da noite, coragem no meio do medo, certeza no meio da dúvida, ombros e colos já permanentes de afeto. 33 é pensar que deveria estar como todo mundo, mas logo saber que você não é todo mundo, e que o seu caminho é escrito por linhas só suas. 33 é ter ainda mais certezas de deus, desejar uma família e saber que ela virá, é ter experimentado o mundo e guardar na boca o gosto dele, é acreditar mais em você, doar-se mais a você, saber-se cada dia mais. 33 é só o começo. porque o começo, na verdade, aos 33 a gente sabe: é sempre.



terça-feira, 21 de outubro de 2014

retas paralelas se encontram no infinito

teus olhos
confessando
o que havia
lá no peito
e eu, ali, chorando
tão sem jeito
no silêncio de nós
e do nascer
daquela manhã

o destino parecia
já haver designado:
cada um para seu lado
não há mais tempo de ser.

morria, o amor,
antes mesmo de nascer.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

ddd


ele diz que sente saudade, eu digo que tenho vontade. mas ambos queremos o mesmo. finjo menos, talvez, aceitando ser presa. ele romantiza, por certo, querendo atacar. e distantes nos aproximamos em mente, lembrando calores, suores misturados, pressa de fundir os corpos, derrubando abajur e copos, espalhamento de doces fúrias com os dentes, com os dedos, com as línguas, com tudo o que pensamos – sentimos – ser bom. de repente, 52 graus debaixo da roupa. de repente, arrepio correndo veloz na espinha. de repente, os olhos que se apertam e o sorriso que folga, e uma intensidade iminente que cala querendo gritar. ele diz que sente saudade, eu digo que tenho vontade. mal podemos esperar por nós.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

suspiro


o lado bom de estar cansado é que a gente se amansa. não há riso, nem choro - não há força. somos entrega. boiamos ao longo do rio. e deixamos que ele nos mostre algum rumo.