segunda-feira, 9 de abril de 2012
poesia do arrepio
terça-feira, 13 de março de 2012
são paulo
a chuva
os faróis vermelhos
as pressas
os silêncios de olhos
a escorrer
pelo vidros dos carros
- e sua dor ali.
os prédios
os elevadores e escadas
as multidões nas praças
o homem que bateu
porque cortou alguém
- e sua dor ali.
o corretor impaciente
o vendedor irritado
o advogado aos berros
a atravessar
ruas e gentes
- e sua dor ali.
as ambulâncias diárias
aos prantos e gritos
as metas do mês
bordando máscaras e tipos
a comemorada intolerância
a exceções
a grandiosidade inquilina
da barriga de milhões
- e sua dor ali.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
propensa
Estou propensa ao amor. Não que isso seja garantia de alguma coisa; Não que isso seja um letreiro na testa, um convite pra festa... simplesmente assim me encontro. Me assumo leve. Ando todo passo firme, embora suave. Trago doçura nos olhos, uma quietude no sorriso, um perfume de calma que é tão raro... tão raro. Derramo o que sinto em tudo o que toco, verdadeiramente. Sou entrega. Sinto quase que o tempo inteiro - e gosto de o fazer. Estar propenso ao amor é um estado de espírito e corpo: é possível notar. Tem o riso mais solto, mais tranqüilo. Os olhos mais brilhantes. Tem as mãos passeando seguras. O corpo desperto. É uma coisa bonita, isso, uma maturidade de sentimento, uma certeza de tudo – nunca sei explicar! Só sei que cabe no meu abraço agora todo o carinho do mundo, e o distribuo sem egoísmo: dou a quem precisa de ombro, a quem precisa de ouvido; dou a tem fome na alma, como tenho sempre eu. Dou porque tenho de sobra e este é o meu estado mais pleno, mais vivo. Não é preciso um par romântico para me sentir completa. Não é necessária a promessa de dois. É um amor maior, este que me toma... Um estado voluntariamente feliz e confiante para com todas as coisas. Que me faz, como agora, dançar sozinha na sala brindando uma taça de vinho com o espelho. Quando essa sensação me acontece... eu já sei: vem aí um mar. E estou a postos para um mergulho profundo.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
desamor
coisa boa é o desamor.
a cara do alívio.
quanto suplício, meu deus,
derramou aquela boca!
hoje desdenha, ri,
hoje diz: louca!
como pude?
como foi
mesmo isso?
não há o que pague
quando o olho vê
e o coração nada!
nenhum arrepio
nenhum calafrio
a dor apagada!
oh, grande senhor dos peitos,
amém à cura do meu.
desamor é vida!
regresso de si,
reencontro.
rasgo nas fotos,
incêndio nos ontens
passado e pronto.
agora,
em mim,
só o que virá
vive:
livre,
livre,
livre.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
de: para:
Era uma carta de amor. Um pedaço de papel embrulhando um pedaço do peito. Era uma verborragia inocente e dançante, uma harpa solando para presente, era um pacote de 1000 fatias de cebola picadas – como fazia lacrimar. Era uma carta de amor… uma coleção de vírgulas e reticências, o avesso inteiro de um coração, um alagamento irreversível de sentimentos - jorrava, pingava, molhava. Era um trem apitando, correndo a mil entre trilhos em direção aos olhos do destinatário (que além de destinatário havia de ser também destino, segundo o desejo do remetente). Era um buquê de palavras, um suicídio explícito de solidão - se jogou convicta, cética, côncava, do octogésimo andar! Era um contrato entre os países da alma, era uma bandeira branca tamanho A4, era um travesseiro para certezas, uma chama invisível queimando, um frasco inteiro de paz. Era uma verdade bruta feito diamante... um desfile de risos; era um bilhete de loteria grande, uma compota de suspiros. Era o que era: uma carta, vejam todos, uma carta de amor.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
1, 2, 3, go!
Começar o ano de branco e manter seus primeiros dias também assim. Brancos, novos, puros, páginas a espera do correr dos dias e dedos. Brancos! Zerar tudo o que não foi vivido, as angústias iminentes, o passado que não anda – nem é bom repetir, deixa lá, deixa lá. Brancos! Tempos ávidos pelo preenchimento que virá, tão promissor, tão bonito, tão latente. Encorajo meu peito, sorrio meus olhos, ergo minhas mãos para a luta: somos novos e somos tantos, há um mundo e há possibilidades, quero tudo, quero muito, quero brancos! Me perdoe você, que não me aconteceu… precisei te abandonar. Abandonei também, aliás, os dias cinzas, as reticências estendidas, os soluços parasitas, abandonei os planos falíveis, abandonei as roupas que já não mais uso, abandonei tantos medos, os nãos que eu comumente invento, abandonei as pessoas que foram quaisquer, e só quaisquer, nos lábios meus... Abro minhas portas para o possível, sem entraves, sem trancas, sem memórias, bandeira estendida dos virgens: branco!
Chegue-me pleno e em paz, destino, que meu calendário é todo seu.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
avassalador
Amor avassalador
Vicia
A gente quer, depois,
Que tudo arregace
Que tudo arrebate
Que tudo arrepie.
E aí
Se não vem
Se não é
Sobra suspiro profundo
- gasta-se na hora que não dá,
nas notícias da TV,
no vestido da vitrine
- quanto desperdício.
E aí
Se não vem
Se não é
Fica a gente catando peito
Achando leito
desesperadamente
Onde não tem.
Romantiza por qualquer trocado
Pena que nem o diabo
Sente falta de um pedaço
Enorme de dentro.
Vive à mercê do e se... Ô dó!
Os olhos à caça,
Agonia que não passa,
Luta em vão contra o tempo.
Pra que serve mais todas as roupas?
As garrafas de vinho?
As velas semi-derretidas
ainda a espera
de queimar por dois?
Pra que serve mais os versos criados
E não-ditos
(eram surpresa)...
Tudo em coma,
Tudo em transe,
Numa iminência longínqua
(mal sabem)
de acontecer.
Só nos resta esperar,
As unhas roer,
O desejo acalmar,
rimar, pirar, beber!
Até que então venha
outro amor avassalador,
chegando bem daquele jeito:
Cheio de riso, cheio de encanto,
Fazendo de novo
bagunça no peito.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
sobre alguns dias
São Paulo é grande, tão grande, e me ocupa o tempo, e me seduz noturna, e me desafia fria, desdenhando elegantemente do meu calor. Às vezes me evita, às vezes acaricia, às vezes é dura e seca feito seus concretos, mas também me canta baixinho canções tristes - eu que não resisto a melancolias e saudades. São Paulo é isso e eu, por vezes, o oposto: aquilo que sente, e que disso depende, aquilo que vive a espera de. E eu temo perder minha poesia pelos bueiros que não existem, eu temo assistir escorrer os meus versos calmos junto com a chuva que lava o poder do homem, a chuva que insiste no caos - esse choro do céu.
Procuro o alto dos prédios, a visão plena, o vento lambendo os cabelos. Quero parto para os meus sentimentos, colo para a minha poesia. Mas não alcanço... Entre os propósitos das fardas e metas e números e sonhos, minha alma pede graça, amores arfantes, vestidos leves, o veludo da pele saída do banho, alguma coisa de calma e dengo – mas dengo, nessa cidade, ninguém sabe lá muito bem o que é.
Observo o país que me cerca - é um país. Me perco na grandeza de São Paulo. Embora fora justamente para me encontrar que aportei, esperançosa feito manhã nascendo, em seus braços largos.
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
vida adulta
uma formiga sobe
na minha pele
mas logo me troca
pela mármore dura
e eu me pergunto
- na verdade constato -
onde foi parar
minha doçura?
terça-feira, 8 de novembro de 2011
não predestinados
Há, de minha parte, uma tensão dançando iminente. Um medo precavido: não se mostra, mas está lá, pronto para o que não vier. Nada é certo, e esse é o nosso preço em ser. Nada é certo. Tão falsamente livres... tão comedidamente amantes... tão susceptíveis à reticências, às diferenças, às consequências... Tão. Dançamos valsa no pequeno espaço que nos impõe a distância: favor não passar destes metros, tudo é possível do lado de lá - riso, rasgo, seta, venha, fuja, case-se, case-me, deixe-me, sempre e nunca mais... Por isso somos apenas as primeiras letras dos nossos nomes. Apelidos emprestados. Somos apenas os primeiros dias dos meses. Desejos domados. Somos apenas pequenas partes de nossos sonhos. Amores não predestinados.
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Esvaziando
Ando sendo do que vem. Desapego de pronomes, experimento verbos, soterro tudo o que sinto – sentia - com o que procuro me ocupar de pensar. Ofusco o réquiem: ligo o som alto. Danço sozinha. Conheço pessoas. Me perco em multidões. Flerto, correndo de minha ventania, com o superficial (me afundei demais em mim). Brindo rachando taças e borro a maquiagem nos olhos chorando de tanto de rir – na verdade, rindo de tanto chorar.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
do mar
Gente que vem do mar é como é.
Deve ser essa coisa de andar meio nua e não, essa liberdade de não ter que vestir completamente.
Essa coisa de caminhar, caminhar, caminhar... como que sem rumo, ajeitando o prumo e o vento na vela, seja para onde for.
Gente que é do mar é como é.
Vive o que tem.
Preza o que tem.
Come o que tem.
E tem, talvez por isso,
sempre mais.
Acredita no sol e no sal. Prefere o bem ao mal. É feliz com cada grão de areia.
Gente que vem do mar se derrama: oceano.
Gente que vem do mar corre o mar na veia.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
quatro mãos

aliviando sentimentos e conversando sobre a vida, o amor e todas as coisas, eu e a minha amada e talentosa amiga ludimila ventura fizemos das agonias palavras. quase que sem querer, mas tão cheias de alma e sintonia. eu rimei meio canção, ela poetizou em prosa.
Se eu pudesse pedir algo... vida, Deus, tempo: gostaria de uma certa peneira de amanhãs. Um filtro, sabe? Um seletor. Não quero esbarrar em ausências. Gente que falta alma, que falta amor, que falta fé. Não venha. Não encoste. Não sugue de mim o que eu tenho trabalhado noite e dia para conservar puro. Não vem não. Não vem de sorriso aberto se peito tiver fechado. Quero o que é sincero. E se não for, prefiro vida com todas as plenitudes outras que ela me propõe. Cuidar das vírgulas nossas, das arestas que nos machucam o calcanhar, viver em si. Esse é meu pacto maior. Minha lei atual. Meu modus operandi.
Eu:
O sentimento que resta
Quase que fresta
Rasga
o silêncio da noite
Antes fosse só verso,
Antes só verso,
Ah, antes fosse...
E não que haja culpados,
Nada nem ninguém errado:
Aceitar o destino
e ponto.
Vento batendo na vela
E o desejo dela:
Ah, coração...
fique pronto.
E a nós,
Que venha o tempo.
E a nós,
Que venha o tempo.
E a nós,
Que venha o tempo.
E a nós,
Que venha o tempo.
E seu perdão
E os porquês
O que tiver
Assim vai ser...
E seu perdão
E os porquês
O que tiver
Assim vai ser...
terça-feira, 30 de agosto de 2011
trip hop soundtrack
Se apresenta como calor.
Chega perto. Acorda o arrepio. Entra nos olhos, em primeira instância. Faz acampamento.
Acende a lareira de dentro, serve uma taça de vinho. Guarda o cigarro para depois.
Passeia pela ponta dos dedos, dos pêlos, nos riscos das peles, nos vãos dos poros. Crescente. Pulsante. Arfante. Serpente.
Explora cada um dos seus novos territórios. É dono dali.
Abraça, respira, língua o desejo, rasga silêncios, afirma com os olhos e coxas. Acaricia com tudo: cabelos, cílios, cotovelos, dobras, lábios, entranhas.
Dança. Faz poesia de corpos. Dança. Derrete todos os sentidos.
Funde.
Espasma e sussurra pra dentro.
Depois,
Suspira profundo,
Relembra do mundo
e derrama-se em dois, novamente,
para dormir a alegria da alma.
terça-feira, 9 de agosto de 2011
barra grande de camamú
Liberdade é andar nua na areia da praia, a caminho do mar. Sem que lhe julguem os olhos, as línguas, sem que lhe rotulem os infelizes – louca! – sem que lhe cacem, caçoem, espiem, possam alcançar.
Caminhar a passos leves, sem marcas fundas na areia, amando o laranja que beija o céu no cair da tarde, o sal que lhe agarra e a brisa que sussurra um suave bem vindo. Mesmo que na pele algum frio. Mesmo com o topar nos pequenos búzios. Os olhos abertos feito janelas, fixos, como que em busca de tudo o que lhe atrai e falta.
Deixar, lentamente, agora já perto, que o mar lhe lamba os pés. E que aquilo seja tão bom que não possa ser negado. Ouvir o silêncio da vida. A música da paisagem. Entender-se sozinha - e que isso não doa. Atender ao chamado do instinto, depois: mergulhar lentamente nas águas, deixando-se cobrir pelas ondas, pelos beijos das ondas, todos eles. Até que o gelado lhe invada, lavando e levando tudo o que de triste houver.
Saber de seu corpo, neste instante. Ter propriedade dele. Quão lindo. Quão terno. Instrumento, mesmo pó. Dissipar-se, espalhando toda e qualquer partícula que lhe pertença, ainda que só em pensamento. Boiar. Boiar. Soltar a mão do controle. Deitada sobre o mundo que há abaixo, de frente ao que lhe ronda acima, ser profunda, absurda e tão certa da vida que ali mesmo poderia ela acabar.
E diante de tudo, dos ecos do mundo, dos erros dos homens, dos sonhos abandonados, das crianças que choram, dos amanhãs incertos, das ausências, reticências e dos vãos no peito, ali, plena, encharcada, liberta, matéria - e feliz, simplesmente existir.
quarta-feira, 13 de julho de 2011
dois pra lá, um pra lá, outro pra cá
O amor é uma dança.
Vai e vem,
Chega bem perto,
Depois,
distância,
reaquece,
enlouquece,
Gira e gira e gira,
Flutua no reencontro.
Aplausos!
É uma dança.
Pena
é quando um dos dois
cansa.
terça-feira, 12 de julho de 2011
tristeza sobrinha
Trago em mim uma tristeza sobrinha. Sobrinha porque não é filha: vai e vem de visita, apenas, quando e como quer. Quando lhe tenho, é quase completamente minha: acarinho, dramatizo, embalo nos olhos, sofro cada um de seus instantes. Depois, quando me canso dela internamente ou quando lhe bate a vontade (simples assim), é hora de voltar seja lá para casa de quem a possui verdadeiramente.
É uma tristeza mimada: faz birra, bate o pé, às vezes fica e vai ficando, às vezes lhe mando embora com a delicadeza de uma tia que precisa lhe querer de algum jeito, fazer o quê.
Apesar de não me presentear com doces ou coisinhas do tipo, a tristeza sobrinha me traz alguma inspiração. Em sua presença, me visto de alguém triste (ou tento acreditar assim, para não ser esse alguém completamente) e desato nas palavras, nos sentimentos, nas solidões, nos vãos dos caminhos que caminho e não; na brisa de um mar que eu tenho saudade e visito em pensamento. E depois de me exaurir, despetalar, ameaçar abismos, mortes, cortes, eternos, fuga para ilhas, desertos e toda uma vida caminhando só... renasço. Esqueço e pronto. Acordo com a porta batendo: ela se foi.
Mas... danada, apegada, insistente, voltará.
terça-feira, 14 de junho de 2011
por um minuto
segunda-feira, 6 de junho de 2011
coragem
Não haverá sempre mão estendida, mas que não me falte fé. Não haverá sempre riso, mas que não me falte esperança. Não haverá sempre sim, não haverá chuva de compreensões, vontades, humanidades, coisa de gente bem gente, eu sei... Mas que haja em mim coragem, muita coragem - essa mesma que me dirige desde sempre e cada vez mais. Que haja Deus e os seus presentes, que haja os amigos e as possibilidades, que haja o redor, vivo, atraente, engrandecedor. Que haja os meus porquês, o que me mantem firme, forte, sonhadora, crente. Que eu saiba separar o joio do trigo, a verdade da desilusão, o acaso do destino. Que eu saiba... Mais, sempre, de tudo, incansavelmente aprendiz. Venha o que vier.
terça-feira, 3 de maio de 2011
novidade
Eis que o destino e suas (ou minhas?) loucuras acontecem: me mudei para São Paulo. De uma vontade de tudo, de um medo de tudo, de uma esperança de tudo, de uma certeza de nada. Vim assim, repentinamente, sem me dar chances de outras opções. Aportei com minhas poucas malas e tantos sonhos. Frio na barriga e em todas as outras partes do corpo. Me joguei sem pensar – é hora de sentir.
Me mudei para São Paulo. Encaro meus medos todos os dias: cumprimento-os com uma naturalidade lentamente crescente, desejando ansiosamente que eles, algum dia, não sejam mais meus.
Às vezes é triste olhar para trás e pensar no que deixei; às vezes é duro olhar para frente e ver o tanto que ainda tenho para caminhar. Mas sacudo os pensamentos, engulo o choro, respiro fundo e firmo os pés, ainda que temerosos: escolhi. É. Será.
Vivo a cidade. Pergunto se vai chover, eles dizem que não - o céu é mesmo assim. Rio e faço que tudo bem: quero o que é possível, o que tiver de ser meu. Procuro me conformar com o que for necessário, por enquanto.
O vento gelado abusa, me estraga a voz e a saúde, mas sigo. Caminhos meus passos procurando graça para os olhos, inventando coisas, metas, projetos, preenchimentos de tempo. Rio das minhas bochechas vermelhas, queimadas do frio. Ouso sonhar com cores. Observo, pelas janelas dos táxis, esse mundo de concreto e luz que agora é também meu.
Suspiro, como quem só começa, mas também acredita: que labirinto enorme para a minha poesia.